O radão mata mais pessoas em Portugal do que a esmagadora maioria imagina – e quase ninguém sabe o que é. É um gás natural, radioativo, que se forma no subsolo e que respiramos todos os dias sem qualquer perceção da sua presença. Não tem cor, não tem cheiro, não tem sabor, não provoca sintomas imediatos. E, no entanto, é reconhecido por toda a comunidade científica e por organismos de saúde de todo o mundo como a segunda maior causa de cancro do pulmão, logo a seguir ao tabaco. Este artigo explica, de forma clara e rigorosa, o que é o radão, de onde vem, porque é tão perigoso, e o que a ciência sabe sobre os seus efeitos na saúde. Compreender o problema é o primeiro passo para se proteger dele.
Principais Conclusões
- O radão é um gás nobre radioativo que resulta do decaimento natural do urânio presente nas rochas e nos solos, sobretudo nos terrenos graníticos. Migra do subsolo para a superfície e acumula-se no interior dos edifícios, onde é inalado pelos ocupantes.
- O perigo não vem tanto do radão em si, mas dos seus descendentes radioativos – partículas sólidas que se depositam nos pulmões e emitem radiação alfa, danificando as células e aumentando o risco de cancro do pulmão ao longo do tempo. É classificado como cancerígeno do grupo 1 pela Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro.
- Em Portugal, a legislação define um nível de referência de 300 Bq/m³, mas o risco é maior nas regiões graníticas do norte e do interior. A boa notícia é que o radão é um perigo totalmente evitável – a exposição pode ser medida e reduzida com soluções conhecidas.
O Que é o Radão
Um gás nobre e radioativo
O radão é um elemento químico gasoso, pertencente ao grupo dos gases nobres – a mesma família do hélio, do néon e do árgon. Como todos os gases nobres, é quimicamente inerte: não reage com outras substâncias, não arde, não se combina. É também incolor, inodoro e insípido, o que o torna completamente imperceptível aos sentidos humanos.
A diferença fundamental do radão em relação aos outros gases nobres é que é radioativo. Os seus átomos são instáveis e decaem espontaneamente, emitindo radiação no processo. É esta radioatividade – e não qualquer propriedade química – que faz do radão um perigo para a saúde.
O isótopo mais relevante para a saúde pública é o radão-222, que tem um tempo de semivida de cerca de 3,8 dias. Isto significa que, a cada 3,8 dias, metade dos átomos de radão presentes num dado espaço decaem e transformam-se noutros elementos – libertando radiação de cada vez que o fazem.
De onde vem: a cadeia do urânio
O radão não existe isoladamente na natureza – é um produto intermédio de uma longa cadeia de decaimento radioativo que começa no urânio. O urânio-238 está presente, em maior ou menor quantidade, em praticamente todas as rochas e solos do planeta. Ao longo de milhões de anos, o urânio decai lentamente, passando por uma série de elementos intermédios até chegar ao rádio-226. É o rádio que, ao decair, produz o radão-222.
Como o radão é um gás – ao contrário do urânio e do rádio, que são sólidos -, tem a capacidade de se libertar da rocha onde se formou e migrar através dos poros e das fissuras do solo. É esta mobilidade que o torna perigoso: enquanto o urânio e o rádio ficam presos na rocha, o radão viaja, sobe à superfície e infiltra-se onde encontra caminho.
Porque migra do solo para o ar
Uma vez formado no subsolo, o radão desloca-se por difusão e por transporte através dos espaços de ar e da água presente no terreno. Ao atingir a superfície, se estiver ao ar livre, dispersa-se rapidamente na atmosfera e dilui-se até concentrações inofensivas – o radão exterior não representa, em geral, qualquer risco relevante.
O problema surge quando, no seu caminho para a superfície, o radão encontra um edifício. Aí, em vez de se dispersar livremente, pode acumular-se num espaço fechado – e é nessa acumulação que reside todo o perigo.
Porque é Que o Radão é Perigoso
O verdadeiro culpado: os descendentes do radão
Aqui está um dos aspetos menos conhecidos e mais importantes sobre o radão: o gás em si, sendo inerte, é largamente exalado dos pulmões depois de inalado. O perigo real não vem tanto do radão, mas dos seus produtos de decaimento – os chamados descendentes ou “filhos” do radão.
Quando o radão-222 decai, produz uma série de novos elementos radioativos, nomeadamente o polónio-218 e o polónio-214. Ao contrário do radão, estes descendentes são sólidos. Formam partículas microscópicas que se agarram às poeiras e aos aerossóis suspensos no ar que respiramos. Quando esse ar é inalado, estas partículas depositam-se nas paredes das vias respiratórias e dos pulmões – e ficam lá.
A radiação alfa e o que faz aos pulmões
Os descendentes do radão depositados nos pulmões continuam a decair, e ao fazê-lo emitem radiação alfa. A radiação alfa é constituída por partículas relativamente pesadas e altamente energéticas, com um alcance muito curto. Fora do corpo, é inofensiva – nem sequer atravessa a pele ou uma folha de papel. Mas quando é emitida no interior do organismo, mesmo à distância de alguns milionésimos de metro das células pulmonares, torna-se extremamente danosa.
Cada partícula alfa emitida junto ao tecido pulmonar liberta a sua energia num espaço minúsculo, danificando diretamente o material genético (ADN) das células. Ao longo de anos de exposição, esta agressão repetida acumula danos que podem conduzir a mutações celulares e, em última instância, ao desenvolvimento de cancro do pulmão.
Um cancerígeno reconhecido
O peso da evidência científica sobre o radão é hoje esmagador. A Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC), da Organização Mundial de Saúde, classifica o radão como cancerígeno do grupo 1 – a categoria reservada aos agentes para os quais existe evidência conclusiva de que causam cancro em humanos. É a mesma categoria do tabaco, do amianto e da radiação ionizante.
A Organização Mundial de Saúde estima que o radão seja responsável por uma fração significativa de todos os casos de cancro do pulmão – variando, conforme os níveis médios de radão de cada país e a prevalência do tabagismo, entre cerca de 3% e 14% dos casos. É, de forma consensual, a segunda maior causa de cancro do pulmão a seguir ao tabaco, e a primeira causa entre não-fumadores.
O efeito multiplicador do tabaco
Há um aspeto particularmente importante na relação entre o radão e o tabaco: os dois riscos não se somam apenas – multiplicam-se. Um fumador exposto a níveis elevados de radão tem um risco de cancro do pulmão substancialmente superior à soma dos riscos individuais do tabaco e do radão isoladamente considerados. O fumo do tabaco danifica as vias respiratórias de formas que amplificam o efeito da radiação dos descendentes do radão.
Isto significa que, embora o radão seja perigoso para todos, é especialmente perigoso para fumadores e ex-fumadores – e que reduzir a exposição ao radão é particularmente relevante nestes casos. Não deixa, porém, de ser um risco real e quantificável mesmo para quem nunca fumou: recorde-se que é entre não-fumadores que o radão figura como a principal causa de cancro do pulmão.
Onde Há Mais Radão

A geologia manda
A quantidade de radão libertada por um terreno depende diretamente da sua composição geológica – concretamente, do teor de urânio das rochas subjacentes. Os solos e rochas graníticos, ricos em urânio, libertam significativamente mais radão do que os terrenos sedimentares, calcários ou argilosos. Por isso, o risco de radão não é uniforme: varia de região para região, e mesmo de local para local dentro da mesma região, em função da geologia.
O radão em Portugal
Portugal tem vastas áreas de substrato granítico, particularmente no norte e no interior do país, o que se traduz em níveis de radão tendencialmente superiores à média nessas regiões. A legislação portuguesa identificou historicamente os distritos de Braga, Vila Real, Porto, Guarda, Viseu e Castelo Branco como zonas graníticas onde a atenção ao radão é particularmente relevante, e a Agência Portuguesa do Ambiente disponibiliza um mapa de suscetibilidade que permite avaliar a probabilidade de concentrações elevadas em cada zona.
O enquadramento legal assenta no Decreto-Lei 108/2018 (na sua redação atual), que transpôs a diretiva europeia de proteção radiológica e estabeleceu um nível de referência nacional de 300 Bq/m³ para habitações e locais de trabalho. Complementarmente, o Plano Nacional para o Radão define objetivos e metodologias de avaliação, e a lei obriga à medição do radão em determinados locais de trabalho, sobretudo nas zonas de maior suscetibilidade e em espaços situados ao nível do solo ou em subsolo.
Outras vias de exposição
Embora o solo seja a principal fonte de radão nos edifícios, não é a única. A água proveniente de furos e poços em terrenos graníticos pode conter radão dissolvido, que se liberta para o ar interior quando a água é utilizada – ao tomar banho, ao lavar loiça, ao abrir uma torneira. Também alguns materiais de construção de origem granítica podem libertar pequenas quantidades de radão. Estas vias são, em regra, secundárias face à infiltração a partir do solo, mas podem ser relevantes em situações específicas.
Como Se Mede o Radão – e O Que Significam os Números
A unidade: becquerel por metro cúbico
A concentração de radão no ar mede-se em becquerel por metro cúbico (Bq/m³). O becquerel é a unidade de radioatividade: um becquerel corresponde a uma desintegração radioativa por segundo. Assim, uma concentração de 300 Bq/m³ significa que, em cada metro cúbico de ar, ocorrem 300 desintegrações de átomos de radão por segundo. Quanto mais elevado o valor, maior a radioatividade presente no ar e maior o risco associado.
Para contextualizar os valores: a Organização Mundial de Saúde recomenda um nível de referência de 100 Bq/m³, admitindo que, quando esse valor não seja exequível, não se ultrapasse os 300 Bq/m³. É este último valor – 300 Bq/m³ – que a legislação portuguesa e europeia adota como nível de referência.
Como se mede
A única forma de conhecer a concentração de radão num espaço é medir – não há qualquer forma de a estimar pelos sentidos ou pela inspeção visual. A medição faz-se com detetores específicos, tipicamente detetores passivos que se colocam no espaço a avaliar e que registam a exposição acumulada ao longo do tempo. Para ser fiável, a medição deve prolongar-se por um período mínimo de cerca de três meses, idealmente durante os meses mais frios do ano – período em que os edifícios estão mais fechados e menos ventilados, e em que as concentrações tendem a ser mais elevadas. A medição deve recorrer a entidades reconhecidas para o efeito.
Porque é Que o Radão Se Acumula Dentro dos Edifícios
Compreendida a origem e o perigo do radão, falta explicar o mecanismo que o torna um problema de saúde: a acumulação em espaços fechados. Um edifício assente sobre terreno com radão comporta-se, em certa medida, como uma bomba de sucção. O interior aquecido está tipicamente a uma pressão ligeiramente inferior à do solo subjacente, e essa diferença de pressão “puxa” o gás do terreno para dentro do edifício, através de fissuras na laje de fundação, juntas de betonagem, pontos de passagem de tubagens e qualquer descontinuidade em contacto com o solo.
Uma vez no interior, e sem ventilação suficiente que o disperse, o radão acumula-se – especialmente nos espaços mais próximos do solo, como caves, garagens e pisos térreos, e sobretudo durante os meses frios, quando as janelas estão fechadas. É por isso que dois edifícios sobre o mesmo terreno podem apresentar concentrações muito diferentes: tudo depende de como foram construídos e ventilados.
Da Consciência à Ação: O Radão É Evitável
A mensagem final sobre o radão é, apesar de tudo, positiva: ao contrário de muitos riscos de saúde, o radão é totalmente evitável. A exposição pode ser medida com rigor, e pode ser reduzida com soluções conhecidas e eficazes.
Para edifícios já construídos, existem medidas de mitigação que reduzem as concentrações interiores – desde a melhoria da ventilação até sistemas de despressurização do solo. Mas é na construção nova que reside a oportunidade mais eficaz e mais económica: impedir que o radão entre, em vez de o expulsar depois. Isto consegue-se interrompendo o contacto direto entre o edifício e o solo e criando um espaço ventilado intermédio que dispersa o gás antes de este chegar ao interior – o princípio da caixa de ar ventilada, realizada com sistemas como o Iglu’® e o Atlantis da Daliform, distribuídos em Portugal pela Constreco.
Estes sistemas elevam o pavimento acima do terreno, criando sob a casa uma câmara de ar contínua e ligada ao exterior, através da qual o radão que emana do solo é arrastado e disperso na atmosfera, sem chegar aos espaços habitados. É uma solução passiva, sem consumo energético e sem manutenção, que ao mesmo tempo protege a casa contra a humidade ascendente do terreno. Para quem está a construir numa zona de risco e quer aprofundar como aplicar esta proteção, a Constreco disponibiliza documentação técnica sobre estes sistemas de ventilação e acompanhamento especializado desde a fase de projeto.

